Após o desligamento de cerca de mil funcionários do Itaú Unibanco, que atuavam em regime híbrido ou remoto e foram avaliados através de softwares de monitoramento de produtividade, reacende o debate sobre como medir o desempenho no trabalho remoto. Os programas utilizados pela instituição registram o tempo de uso do computador, número de cliques e aplicativos acessados, práticas permitidas pela legislação.
Enquanto o Itaú afirma que não considera exclusivamente o uso de mouse ou teclado, mas sim “indicadores robustos da atividade digital real”, incluindo videochamadas, mensagens e pacote Office, especialistas questionam a eficácia e justiça desses métodos. A avaliação do banco identificou funcionários com apenas 20% de atividade digital diária, mesmo com horas extras registradas, contrastando com a média de 75% considerada adequada pela instituição.
Diversas grandes empresas que adotam modelos remoto ou híbrido foram procuradas, mas nenhuma concedeu entrevista sobre seus métodos de monitoramento. Especialistas apontam desafios cruciais, como a dificuldade de aplicar métricas únicas a diferentes áreas e funções, e a importância de equilibrar a avaliação quantitativa com a qualitativa.
Para o professor Marcelo Graglia, da PUC-SP, a dependência exclusiva de algoritmos quantitativos pode levar a decisões injustas e à perda de talentos. A consultora Thatiana Cappellano defende que a avaliação deve focar na entrega e qualidade do trabalho, e não apenas no tempo gasto em frente ao computador.
A professora Luciana Morilas, da USP, destaca a necessidade de métricas específicas para cada área e uma gestão mais próxima e individualizada, com comunicação clara e feedbacks regulares. Padronizar o monitoramento é complexo e ineficaz, mas alternativas como avaliações de entregas e check-ins regulares podem ser mais eficazes.
A demissão em massa no Itaú pode influenciar outras empresas a repensarem o trabalho remoto. Um estudo do Insper mostra que, embora a frequência do home office tenha diminuído desde o auge da pandemia, ele ainda é relevante para muitos trabalhadores. Especialistas alertam para o risco de controles rígidos afetarem a confiança e o desempenho, e defendem a busca por formas de acompanhar entregas sem medidas invasivas.









